A renúncia do “Poderoso Chefão”

Dora Kramer tem razão, a renúncia de Eduardo Cunha da presidência da Câmara pôs fim à lenda urbana segundo a qual seus poderes eram (são) ilimitados.

Além disso, serve também como mais um enfraquecimento da tese de que o impeachment de Dilma Rousseff foi um golpe chefiado por ele e associados. Como golpe se agora os supostos líderes do mesmo, Cunha e parte da cúpula do PMDB, estão sendo progressivamente depauperados de seus poderes pelas instituições de fiscalização e controle?

Acho melhor a hipótese segundo a qual a democracia brasileira, em que pesem seus inúmeros problemas e deficits, tem contudo virtudes importantes, a exemplo do funcionamento do chamado sistema de integridade (Policia Federal, Ministério Público, Justiça Federal, TCU, etc). Este sistema, de que é expressão importante a Operação Lava Jato, está identificando, investigando e começando a punir as mazelas do sistema política brasileira e, por isso, está focando em alguns dos seus principais líderes, levando à lona até os seus supostos poderosos chefões; aliás, primeiro foram os executivos das empreiteiras e os tesoureiros de partidos; agora começam a ser os políticos.

Mas é bom ter claro que tudo isso está ainda apenas no seu início e que já tem forças tentando resistir aos avanços realizados, hajam vistas as tentativas de mudança da legislação para atenuar o papel da delação premiada e do cumprimento de pena a partir da condenação em segunda instância. O rumo do processo, daqui para frente, vai depender do apoio e da pressão da opinião pública; e de que os eleitores parem de eleger e reeleger políticos corruptos.

Temer tem popularidade precária, pois governo é novo e se comunica mal

Entrevista a Ricardo Leopoldo, do Bradcast Estadão, em 01/07/16

O governo Michel Temer tem popularidade ainda precária, pois é uma administração muito recente e comunica mal à sociedade sobre temas muito relevantes, comentou ao Broadcast do Estadão o acadêmico José Álvaro Moisés, professor titular de Ciência Política e diretor do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas – NUPPs, da Universidade de São Paulo. De acordo com a pesquisa CNI/Ibope divulgada hoje, a avaliação boa ou ótima do governo Temer é de 13% e a ruim ou péssima atinge 39%.

“A administração Temer tem uma boa equipe econômica, com autoridades muito respeitadas e que já propuseram questões bastante necessárias ao país, como o ajuste fiscal, sobretudo o teto de gastos para as despesas públicas vinculado à inflação do ano anterior, e também a reforma da Previdência Social”, comentou Moisés. “Contudo, é preciso explicar à população para quê serve o ajuste fiscal, por que as mudanças estruturais na Previdência são positivas para o País, e a que serve a contenção de gastos do Estado”, apontou.

Na avaliação do professor da USP, a gestão Michel Temer ainda tem uma nota negativa nos temas relativos à política. “Não basta o governo dizer que apoia a Operação Lava Jato, pois ela tem vida própria, dado que é dirigida por instituições do sistema de integridade como a Procuradoria Geral da República, a Polícia Federal e a Justiça Federl”, disse. “O governo precisa liderar o movimento de combate à corrupção, se quiser se sintonizar com a sociedade está apoiando fortemente as investigações e processos.”

Para o pesquisador, um dos fatores que prejudicou a popularidade do governo Temer foram erros na área política que poderiam ter sido evitados com facilidade. “Não deveria ter nomeado políticos que estavam com problemas de investigações pela Operação Lava Jato e a Justiça, o que provocou a queda de três ministros em poucas semanas”, apontou. “Uma outra questão sem suficiente explicação é por que o governo substituiu a Controladoria Geral da União, que já vinha fazendo um bom trabalho desde a gestão do ministro Jorge Hage, para a atual pasta da Transparência, Fiscalização e Controle”, comentou; os objetivos desta não são claros.

Na avaliação do acadêmico, se o governo Temer não melhorar a forma como lida com essas e outras questões políticas, como a busca de mais transparência e eficiência na gestão pública, corre o risco de ver sua popularidade cair mais nos próximos meses, pois uma parte da sociedade poderia considerar que sua administração envelheceu antes da hora e frustrou expectativas de mudanças da população.

Sobre os rumos do governo Temer

É cedo para balanços de fôlego, mas o governo interino de Temer dá sinais positivos, responsáveis, na área da economia, mas vai mal na área da política, com escolhas – em vários casos – incompatíveis com as novas exigências de transparência da sociedade brasileira.

Em todo caso, três aspectos merecem atenção em suas declarações de ontem: i. não vai usar a imagem de herança do passado para explicar as dificuldades do presente; o governo tem de agir nas condições q tem; ii. os cortes de gastos não vão afetar os percentuais de educação e saúde; iii. e, mais importante, o Executivo não vai mexer com, ou criar obstáculos às investigações e procedimentos da operação Lava Jato.

Nada para celebrações, mas declarações que apontam para compromissos importantes – minha posição é que a sociedade, quer dizer, os cidadãos devem estar alertas, vigiar e cobrar. Precisamos cada vez mais de uma cidadania ativa e crítica, até para dissipar a falsa noção de que as coisas q importam, as mudanças q queremos, dependem apenas de quem governa.
Bom dia a todos/as.

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