Definição do conceito de populismo é controvertida entre especialistas

Ponto em comum nas discussões é o fato de o sistema político ter base na vontade do povo

Classificar determinados movimentos políticos atuais como populistas ou neopopulistas divide a opinião de especialistas em razão da complexidade do conceito. “É um movimento político típico, mas não exclusivo, das décadas de 1940 a 1950 na América Latina, em que a principal virtude de um governo reside na sua relação direta com o que é denominado ‘povo’. Falar em nome do povo, decidir em nome do povo, controlar em nome do povo são as máximas do populismo”, afirma o professor e coordenador do curso de Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Moisés Marques.

“É um fenômeno de estilo político que se baseia em determinada performance política, com três características. A primeira é o apelo ao povo, a segunda é manter o poder a partir de atividades populares e a terceira é criar resoluções simples para alguma crise. Um exemplo é o que (Donald) Trump faz com a história do México”, explica o professor de Ciência Política da Universidade de Estocolmo e autor do livro “The Global Rise of Populism: Performance, Political Style and Representation”, Benjamin Moffitt, se referindo à premissa do candidato republicano à presidência dos EUA de que resolverá a crise migratória no país ao construir um muro na fronteira com o México.

Para definir o momento atual, Marques explica que governos aproveitam alguns elementos do populismo para liderarem, mas não aplicam o modelo puro. “O que se tem na Europa e nos EUA é uma guinada estranha em relação a personagens meio caricatas na política, em detrimento dos partidos políticos tradicionais. Tanto Trump como algumas figuras que apoiaram o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), como a própria Marine Le Pen, parecem apostar em um modelo de identificação mais direta com o povo, que lembra, em alguns aspectos, o populismo. Porém, não vivenciamos a era da construção dos Estados Nacionais, nem da superioridade da economia doméstica.”

No caso da América Latina, ele cita movimentos pendulares na política. “Assim como na década de 1960, em direção ao autoritarismo e no final da década de 1980, com a eleição de algumas aventuras, Collor, Menem, Salinas e Fujimori, só para lembrar alguns, agora vivemos a ascensão de algumas lideranças anódinas, do ponto de vista político, mas que pregam uma espécie de racionalidade, que não é própria à política da região”, avalia Marques.

Para Moffitt, atualmente existem exemplos de populismo de direita, como o caso de Marine Le Pen na França e Donald Trump nos EUA, e populismo de esquerda, como na Bolívia e no Equador. Nos dois casos, segundo o professor, “o populismo pode se transformar em autoritarismo e esse é o perigo do modelo”.

“Quando o populista começa a atacar minorias, como Trump faz com os muçulmanos, ao dizer que expulsá-los dos EUA resolverá um problema de violência e terror. Quando o líder começa a se colocar como sendo o povo, ‘eu sou o povo’, ‘eu soluciono os problemas do povo’, ‘nunca estou errado’, o modelo começa a ter tendências antidemocráticas”, explica.

Marques tem opinião diferente a acredita que os populismos que existiram não podiam ser classificados em direita ou esquerda. “Originalmente, os movimentos se inspiram mais no fascismo do que no socialismo, mas as variantes que tomaram e suas guinadas nacionalistas, não nos permitem classificá-los assim”, conclui.

Publicado em O Estado de S. Paulo de 18 de setembro de 2016

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