Liberdade e Truculência nas Universidades

A comunidade científica necessita refletir sobre o aumento de uma truculência que se torna cada vez mais uma forma de censura ideológica e diminuição de liberdades

Tenho assistido na comunidade acadêmica a um aumento de notas de repúdio, boicotes, desconvites, piquetes e represálias provenientes de indivíduos, grupos e entidades, inclusive de tradicionais organizações de classe e científicas. Com traços vívidos de irracionalidade, intolerância e truculência, o politicamente correto e a polarização parecem implantar-se de maneira acrítica em muitos setores da vida universitária.

Nesta conjuntura, a Universidade de Chicago, nos EUA, tem tomado iniciativas que podem servir para reflexão daqueles que se dedicam à pesquisa. No mês passado, os novos alunos do College receberam uma carta de seu decano, John Ellison, que destaca o compromisso com o livre debate e expressão de idéias. A universidade deixa claro que os membros de sua comunidade “são encorajados a falar, escrever, escutar, desafiar e ensinar sem medo algum de censura”.

Ao mesmo tempo, a instituição enfatiza que a liberdade de expressão não significa a liberdade para assediar ou maltratar os demais. É antiga a doutrina jurídica que procura distinguir a crítica da ofensa, e pode demarcar um critério para os acadêmicos: configura-se crítica quando a pessoa possui animus criticandi, que é a legítima postura da ciência, que analisa, argumenta, contradiz e discorda. É ofensa quando a pessoa possui animus ofendendi, quando deseja ferir o outro, por exemplo, com argumentos ad personam ao invés de ad objectum, ou com assédio, gritos, boicotes e outros impedimentos de expressão e do contraditório.

Em nossos tempos polarizados e em que temos uma nova arena formada pela internet e mídias sociais, é praticamente cotidiano assistir a manifestações com animus ofendendi. Ao invés da crítica, o ataque. Por outro lado, é indicativo assistir a muitos que possuíam genuíno animus criticandi se intimidarem diante da truculência e se desculparem sem razão por suas posições, e o que é pior, se silenciarem, em um autêntico processo de censura. Muitos dos quais assistimos pedir desculpas diante de movimentos de repúdio não deveriam tê-lo feito. É um princípio da ciência que a heresia de hoje pode vir a ser a verdade de amanhã.

A Universidade de Chicago declara que não desconvida palestrantes por seus tópicos serem julgados como controversos, não coaduna com a criação de “espaços intelectuais seguros” onde indivíduos possam se abrigar de ideias e perspectivas que não sejam as próprias e não apoia a prática de “trigger warnings”, os avisos prévios de que algum tópico da vida acadêmica pode ser ofensivo. Ela convida, inclusive, ao que chama de desconforto, provocado pelo autêntico contraditório. Referencia em sustentação quando escândalos de opinião se tornaram ocasião de censura acadêmica.

No Brasil, faz parte da atualidade o debate sobre uma pretensa prática de doutrinação no sistema educacional. A meu ver e experiência, a doutrinação sim acontece em muitos âmbitos de ensino, e cabe dizer que ela se dá exatamente num tipo desses “espaços seguros” citados pela instituição americana, ou seja, com currículos onde autores e escolas de pensamento são metodicamente retalhados, há culto à personalidade de autores, doutrina apresentada como única verdadeira, reforço de preconceito e senso comum dos educandos, argumentos de autoridade, divisão entre maus e bons, sectarismo e partidarismo. Muitas vezes, doutrinadores e doutrinados não o sabem que o são e assim o negam, pois não tiveram experiência da liberdade acadêmica e do contraditório. Foram formados em ambientes intelectualmente seguros. Ao longo da história, a perene solução contra o fenômeno da doutrinação foi sempre o aumento da liberdade e pluralidade. Neste sentido, a formulação de leis que pretendam regular a sala de aula e impedir a doutrinação não parece ser a melhor solução. Ainda, é necessário dizer que, para alguns dos grupos do debate atual, “doutrinação é sempre quando se ensina a doutrina dos outros e não a nossa”.

Como afirma a carta do decano, eles buscam um campus que dá as boas vindas a pessoas de todos os contextos, onde diversidade de opinião é uma das prioridades e em que todos possam abraçar e explorar um vasto campo de ideias: a atitude da Universidade de Chicago parece assim adotar o chamado paradoxo da intolerância, apontado por Karl Popper: a única intolerância aceita deve ser a contra a própria intolerância. No mais, que se tenha a máxima liberdade. Que este posicionamento possa ser então um subsídio para a reflexão de nossas comunidades de pesquisa.

Giovanni Eldasi é Pesquisador Associado do NUPPs-USP. 

Em anexo, a referida carta e o site da Comissão de Liberdade de Expressão da universidade, com seu relatório anual.

https://freeexpression.uchicago.edu/

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