O alarme do populismo

A essência do populismo está em não conseguirmos defini-lo. Ele tem o dom da ubiquidade. Adora mudar de rosto. Tem todo tipo de roupa no armário.

No ano passado, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, dedicou sua eloquência aos migrantes. Neste ano, na cúpula de Bratislava, onde os 27 países do bloco se reuniram na sexta-feira, foi sobre outro perigo que Juncker disparou o alarme: o populismo.

Populismo, claro, não é novidade. Já havia populistas na Roma republicana. Na Renascença eles também estiveram ativos, por exemplo, em Florença. Mas hoje não é só em alguns países que se encontram populistas. Eles estão nos 27 países-membros da União Europeia, sem falar nos Estados Unidos, que têm muito a se preocupar com Donald Trump.

A essência do populismo está em não conseguirmos defini-lo. Ele tem o dom da ubiquidade. Adora mudar de rosto. Tem todo tipo de roupa no armário. Geralmente o encontramos sob os trajes da direita (Marine Le Pen, Nigel Farage, o húngaro, Viktor Orbán, o movimento Pegida, da Alemanha, etc.). Mas o populismo também veste de bom grado os trapos da esquerda: na Grécia, o Syriza; na Espanha, o Podemos; na França, a Frente de Esquerda, o Mélenchon, o Partido Comunista.

Por que o populismo prospera mais em certas épocas? Pode-se citar razões imediatas, como a crise, os migrantes, etc. Mas, fundamentalmente, o populismo ilustra a eterna guerra entre “as elites” e “o povo”.

Em seus discursos, líricos e apocalípticos, os populistas exploram sejam os baixos instintos (Hitler), seja qualquer tipo de emoção. Não apelam muito à racionalidade, à teoria. Não falam em revolução, mas em revolta. Karl Marx não era populista. Na Revolução Francesa, os sans-culotte se contentavam em pilhar os aristocratas, enquanto os revolucionários – Robespierre, Danton –, que eram burgueses muito cultos, sonhavam com uma sociedade “racional”.

Essa característica – a emoção antes da razão – é muito forte nos populismos europeus. No drama dos migrantes há elementos objetivos que deveriam ser abordados racionalmente, mas na cabeça dos populistas esses elementos são cobertos por uma camada espessa, pegajosa, de emoção, de imaginação, de fantasmagoria: “O árabe vai invadir a Europa aos milhões e violentar todas as mulheres”.

A mesma emotividade se faz notar nos programas econômicos. Quando um partido populista chega ao poder, lança imediatamente um vasto plano de políticas públicas. A economia, então, logo ganha força, mas, após um ano, a mecânica emperra e vem uma hiperinflação. Hoje, nos países dominados pelo flagelo populista, a compra de ouro cresce rapidamente.

As alas populistas são chegadas a uma teoria da conspiração – por trás de todo grande acontecimento existem fatos subterrâneos, bastidores tenebrosos nos quais forças diabólicas agem em segredo, a favor das elites, dos poderosos, dos ricos. Putin é marionete de Obama, ou Obama seria marionete de Putin. Todos são cúmplices, todos são podres. Hillary Clinton tem uma sósia. Os aviões do 11 de Setembro eram uma farsa.

Essa sociedade quase imaginária na qual vivem os populistas é sempre sombria, pessimista: os velhos bons tempos não voltam mais; os filhos não valem o que valiam os pais e os pais não valem o que valiam os avós; o mundo está numa longa decadência, caminhando para o fim; todos os dirigentes e as elites só querem encher os bolsos – são corruptos, dormem com montes de garotas, mas são homossexuais. Depois deles, o dilúvio! São esses os fantasmas que pululam por trás da ideologia populista.

As causas imediatas do populismo variam conforme a época. Hoje, são duas as principais. A primeira é a crise de 2009, que ampliou vertiginosamente, vergonhosamente, a desigualdade entre “povo” e “elite”. A arrogância obscena dos ricos foi solo fértil para o populismo. A segunda causa, no que se refere à Europa, é a invasão de migrantes, esses milhões de infelizes expulsos da Síria, Afeganistão, Somália, Líbia, de todos os lugares em que os Estados Unidos tentaram impor sua ordem.

Não surpreende que, na Europa, o lugar favorito dos populistas seja o leste: Polônia, Hungria, República Checa, Eslováquia – países economicamente frágeis que, de quebra, se encontram na rota dos pobres migrantes. A reação de Budapeste, Varsóvia, Praga, Bratislava é típica do populismo: restabelecer as fronteiras e fechar-se atrás de muros e arame farpado para impedir a infiltração de “micróbios”.

Entende-se, neste ponto, que entre as causas que favoreceram a epidemia de populismo estão em primeiro plano as grandes realizações que as “elites” impuseram ao “povo”: a globalização americana e, no Velho Continente, essa Europa comunitária dos intelectuais e dos ricos, tudo longe das massas.

Uma última observação: nem é preciso dizer que os agricultores europeus, golpeados pela crise, afastados das elites e vivendo em seu ambiente arcaico, apesar da modernização do campo, continuam muito ligados à mitologia dos ancestrais e constituindo grandes batalhões para o populismo de extrema direita. Marine Le Pen, quando vai aos campos devastados do norte da França, faz a festa.

Publicado em O Estado de S. Paulo de 18 de setembro de 2016

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