Populismo vive metamorfose na América Latina

Para analistas, fenômeno, que nasceu na região, vem adquirindo novas formas para sobreviver ao tempo

As mudanças de governo na América Latina levantaram questões sobre o modelo populista na região e a eficácia de medidas adotadas por líderes “que têm relação direta com o povo”. Analistas consultados pelo ‘Estado’ dizem que a política latino-americana é um “pêndulo” e várias razões, entre elas econômicas, podem levar a novos arranjos institucionais.

“Não é certo, conceitualmente, falar em governos populistas. Temos, no caso da América Latina, governos com apoio popular que estão perdendo espaço, por vários motivos, entre eles econômicos”, diz o coordenador do curso de política e relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Moisés Marques.

Para ele, para ser chamado de populista, um governo teria de estar preocupado com a construção de um Estado nacional e com a superioridade da economia doméstica. “A incompatibilidade entre a matriz sociopolítica e as medidas colocadas em prática por esses governos populares, em algum momento, se colocam em atrito com setores importantes de suas economias e bases políticas.”

O professor da Universidade de Estocolmo, Benjamin Moffitt, acredita que o termo ainda possa ser usado para designar governos atuais e afirma que a América Latina “é a casa do populismo”. “Um elemento do populismo é a habilidade de expor as disfunções dos sistemas democráticos. Este é o caso da América Latina. O populismo ali é uma reação a democracias excludentes e corruptas”, explica.

Para Moffitt, o sistema continua forte na região, mas tem seus métodos questionados. “O populismo não está morrendo, mas passando por modificações. Ainda temos Equador e Bolívia como sistemas populistas fortes. Evo Morales foi muito bom para os pobres, mas criou uma relação flexível com a democracia”, disse.

A crise do modelo na região, segundo analistas, é resultado também da maneira como ele foi aplicado em cada país. “O modelo de (Juan Domingo) Perón, na Argentina, não é igual ao de (Lázaro) Cárdenas, no México, anterior a ele, e mesmo ao de (Getúlio) Vargas, no Brasil”, diz Marques.

Moffitt ressalta que a figura do líder populista é essencial e pode ditar o rumo que o modelo terá. Para ele, um bom populista pode tornar a “política mais acessível e popular”. “Hugo Chávez, na Venezuela, é um grande nome do populismo. Ele levou muitos excluídos ao sistema político, o que é uma coisa boa.”

Para Marques, o que se viu no chavismo foi a recorrência à “vontade popular”, utilizando-se de mecanismos da “democracia direta”. “Não dá para chamar de populismo. Tanto que Chávez tentou usar o termo socialismo do século 21”, disse.

Marques explica que um governo pode não ter as principais características do populismo, mas adotar suas práticas mesmo assim. Como exemplo, ele cita a Colômbia após a paz com as Farc. “Juan Manuel Santos é um líder popular e nacionalista, embora venha do liberalismo. Mas, com a iminência do plebiscito sobre o acordo com as Farc, deve usar elementos populistas para legitimar sua decisão”, disse.

Publicado em O Estado de S. Paulo de 18 de setembro de 2016

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