Sobre Príncipes e Leviatãs – Resultados e implicações das urnas de 2016

PT, PMDB, PSDB, Geraldo Alckimin… Quem perdeu, quem ganhou com as eleições municipais de 2016. Quais os desafios que estão logo ali na frente.

Publicado no JOTA, em 04.10.2016

O resultado das eleições municipais encerra um ciclo da política nacional em que o PT foi protagonista. Na capital paulista, este ciclo se iniciou em 1988, com Luiza Erundina; no Brasil, em 1989, com a disputa entre Collor e Lula. De lá até este início de outubro — para o bem e para o mal, despertando paixões a favor e contra — o PT se manteve no centro da cena política. Esse protagonismo acabou.

Responsabilizado – e responsável — pela brutal crise econômica dos últimos anos, autor de inúmeros erros na condução administrativa e implicado até a medula com a Operação Lava Jato – embora não seja o único –, o PT se dilacera vendo o patrimônio político descer acelerado a ladeira da desgraça. Agrava o quadro o fato de não ter construído liderança alternativa a Lula — à exceção poderia ser Fernando Haddad, chegasse ele ao menos ao segundo turno da eleição paulistana.

Ninguém saberá dizer qual será seu futuro — nem mesmo os petistas, atordoados e destituídos de largos espaços institucionais; a máquina e até mesmo as bases diminuíram drasticamente. Uma volta às origens é improvável – o discurso moral já não lhe é permitido; além disso, o país mudou e os movimentos sociais não são os mesmos. Pela esquerda, a ameaça é o PSOL; ao centro, não há alternativa. A vida será dura e a porta dos fundos será a saída mais rápida para muitos quadros. Restará torcer pelo caos econômico e a inviabilidade do governo Temer? O partido se esfarelou.

Já no PMDB, os números são vigorosos. A legenda tornou a conquistar uma quantidade de prefeituras superior ao milhar — de cidades minúsculas às grandes, mas nada excepcional como Rio de Janeiro ou São Paulo. Como máquina eleitoral — para eleger deputados e senadores – continua exuberante; como alternativa de poder permanece sem nome capaz capitalizar o patrimônio. Michel Temer é uma incógnita e Eduardo Paes – uma de suas apostas – está entre os grandes derrotados. Novidades, como Paulo Hartung (ES), ainda são pouco conhecidas.

PMDB, PSD e PSDB somados numa coligação imaginariamente possível ultrapassam os 2.000 municípios. Mais uma vez: como máquina, são magníficos os números, mas falta nome que aglutine. No curto prazo, o PMDB continua um conjunto contraditório: uma federação de interesses regionais dispersos e difusos, sem unidade. Os demais aliados não se diferem muito. Com a derrocada do PT, a base governista saiu vitoriosa, mas não necessariamente o governo; as partes não formam um todo: contradições e disputas internas dificultam a conciliação de interesses.

Também as expectativas geradas pela eleição municipal foram às alturas, como a expectativa do próprio governo Temer aprovar medidas estruturais e retomar o desenvolvimento econômico. Mas, a partir de janeiro de 2017, os novos prefeitos – aliados, inclusive – baterão às portas do Planalto atrás de recursos que não existem. Será difícil cumprir as promessas de 2016. A reversão desse tipo de expectativa é pior do que começar de baixo, esperando pouco. Como sparing, o PT fará falta.

Durante a campanha, não houve atenção e cuidados para a complicada situação fiscal. Naturalmente, se já no curto prazo as novas vitrines dos aliados nada ou pouco realizarem haverá desgaste para 2018. Sabendo disto, no final de semana da eleição, Lula já começava a reclamar do desemprego, cobrando Temer. Política é assim: volátil, irônica, oportunista. Com os futuros prefeitos não será diferente. Pressionados, eles passarão a bola dos conflitos ao governo federal.

A fragmentação é evidente, das urnas não saiu força hegemônica — há grande dispersão. Para o governo federal, os custos de negociação aumentarão: mais atores, mais demandas, mais conflitos. O país vai à busca de um novo protagonista, um aglutinador. Onde será que ele se esconde?

***

Já o PSDB merece um tópico à parte em torno dos números e dos desafios de Geraldo Alckmin. Naturalmente, eleitores de João Dória estão eufóricos: o feito da dupla Alckmin-Dória é inegável. A vitória interna do governador também: em São Paulo, ele realmente atropelou os adversários e consolidou seu poder. Mas, à parte da euforia, o sucesso eleitoral precisa ser compreendido sem negligenciar problemas e a magnitude dos desafios.

João Dória obteve 53,29% dos votos válidos. Como quase em todo país, os números de abstenção, brancos e nulos chamam à reflexão: 21,84% dos eleitores de SP, por exemplo, não foram votar. Ok, tem sido assim. Mas, somados a brancos e nulos — mais 13% do total — constata-se que 34,84% do eleitorado votou em “ninguém”. Se apenas 65,16% dos eleitores votaram em “alguém”, os 53,29% de Dória perfazem, de fato, 34,72% do eleitorado, pouco mais que 1/3.

As vitórias são, evidentemente, legítimas, mas a representação de Dória e dos futuros prefeitos é limitada. Trata-se de fenômeno estrutural: crise de representatividade. Os que não votam e os que votam contra não se sentem representados e, assim, não estabelecem compromissos e apoio com os vencedores. Diante da primeira e inevitável medida impopular, despenca o apoio da opinião pública. A oposição e as raposas da situação percebem a impopularidade; dá-se o leilão ou o início ingovernabilidade. No embevecimento de derrotar o PT, os animados eleitores de Dória não compreendem o busílis.

Num ambiente de exiguidade de recursos, crise fiscal, necessidade de ajustes e enfrentamentos com corporações e grupos de interesse, a popularidade se liquefaz em poucos meses. Claro que as consequências não são mecânicas, o conjunto da obra conta, mas isto se deu também com Haddad e com Dilma. É estrutural: a vitória é rapidamente colocada à prova. Pleno de legitimidade, mas com déficit de representação, o “gestor” poderá recorrer à considerações e desculpas políticas? Dória e Alckmin serão uma coisa só.

Mas, o maior desafio do governador está no PSDB. Imperador em sua terra, Geraldo será provocado a superar a província, colocar-se no cenário nacional; impor-se aos inimigos íntimos. Disposto a decolar, já prepara o plano de voo. Mas, na torre de comando nacional, Aécio Neves pretende alçar voo ao mesmo tempo, com o mesmo destino. E José Serra… Bem, independente da companhia aérea, Serra já está na cabeceira da pista. Visto com olhos de hoje, parece pouco provável que qualquer dos três abra mão de suas pretensões.

Mas, a política é dinâmica e no Brasil, dizia Pedro Malan, “até o passado é imprevisível”; há descargas elétricas às mancheias, a força supersônica da Lava Jato e a questionável qualidade das tripulações. Em virtude disto, nada pode ser descartado. O dado concreto, porém, é que espaço aéreo dos tucanos está congestionado e é pouco provável que não haja algum tipo de colisão no horizonte de céu turbulento.

Carlos Melo, Cientista político e professor do Insper

Instituições Indicadas